Imagem representativa de poupanças na reforma

Organizar o orçamento depois da reforma exige adaptar as despesas a um rendimento que tende a ser mais previsível, mas que pode ser inferior ao salário recebido durante a vida ativa. Alguns encargos mantêm-se, mas outros, sobretudo os relacionados com a saúde e a habitação, podem aumentar.

Para evitar que uma consulta, um seguro ou uma reparação desequilibre as contas, não basta acompanhar o saldo bancário. É necessário saber quanto pode gastar por mês, antecipar os pagamentos que surgem ao longo do ano e criar uma reserva para despesas inesperadas.

Como deve organizar o orçamento depois da reforma?

O orçamento deve partir do rendimento líquido mensal, e não do valor bruto da pensão. A partir daí, assegure as despesas essenciais, antecipe os encargos que surgem ao longo do ano e crie reservas separadas para saúde e imprevistos. Só depois deve definir quanto pode gastar em lazer, compras ou outras despesas menos prioritárias.

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Comece por calcular a pensão líquida disponível

O valor indicado na comunicação de atribuição da pensão pode não corresponder ao montante depositado na conta. As pensões podem estar sujeitas a retenção na fonte para efeitos do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRS), consoante o valor recebido e a situação pessoal e familiar.

Consulte o recibo da pensão e confirme quanto recebe num mês habitual. Se acumular uma pensão de velhice com uma pensão de sobrevivência, some os dois valores líquidos. Acrescente rendas, complementos ou outros rendimentos apenas se forem regulares e previsíveis.

Não conte com reembolsos de IRS, vendas de bens, utilização de poupanças ou ajudas ocasionais de familiares para suportar despesas mensais. Estes montantes podem reforçar reservas ou pagar um encargo extraordinário, mas não garantem rendimento para os meses seguintes.

Pode começar por esta conta:

Margem disponível = rendimentos líquidos mensais menos despesas essenciais e reservas mensais

A margem disponível é o valor que resta depois de assegurar os pagamentos prioritários e preparar despesas futuras. É a partir deste montante que deve definir limites para lazer e outras despesas ajustáveis, sem assumir que todo o valor tem de ser gasto.

Que despesas devem ser pagas primeiro?

A habitação, a alimentação, a energia, os medicamentos e os transportes essenciais devem ser assegurados antes de qualquer compra adiável. As prestações de crédito também devem entrar neste primeiro grupo, sobretudo quando estão associadas à casa.

Depois, reserve dinheiro para encargos previsíveis que não surgem todos os meses. É o caso do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI), dos seguros, das consultas, da manutenção do automóvel e de pequenas reparações.

Só o montante que sobra depois destas duas etapas deve ser distribuído por lazer, roupa, refeições fora, presentes ou outras despesas ajustáveis.

Tipo de despesa

Exemplos

Como tratar no orçamento

Prioritária

Habitação, alimentação, energia, medicamentos e transportes essenciais

Assegurar no início do mês

Previsível

IMI, seguros, consultas, manutenção e obras

Reservar uma parcela mensal

Ajustável

Lazer, roupa, refeições fora e compras não urgentes

Definir um limite

Esta hierarquia não significa eliminar tudo o que não é essencial. O orçamento deve permitir manter a qualidade de vida, desde que as escolhas pessoais não comprometam a saúde, a casa ou os pagamentos dos meses seguintes.

Divida as despesas anuais pelos 12 meses

Considerar apenas as faturas mensais pode dar uma imagem incompleta do orçamento. O IMI, os seguros, algumas despesas de saúde e certas reparações surgem apenas uma ou duas vezes por ano, mas podem absorver uma parte significativa do rendimento no mês do pagamento.

Para antecipar estes encargos, consulte os extratos bancários, faturas e recibos dos últimos 12 meses. Registe quanto pagou em impostos, seguros, consultas, tratamentos, manutenção do automóvel, despesas extraordinárias de condomínio e reparações da casa. Depois, estime os valores para o ano seguinte, some-os e divida o total por 12.

Imagine que um casal prevê os seguintes encargos:

  • 420 euros de IMI;
  • 300 euros de seguro da casa;
  • 480 euros em consultas, exames e tratamentos;
  • 600 euros para manutenção e pequenas reparações.

Nota: Os valores são meramente ilustrativos. Cada agregado deve fazer a conta com base no IMI e nos prémios de seguro que paga, bem como no histórico de despesas de saúde e manutenção e nos encargos já previstos.

No total, são 1.800 euros por ano. Ao reservar 150 euros por mês, o casal consegue preparar estes pagamentos sem comprometer as restantes despesas quando chegarem as datas de pagamento.

Esta reserva pode ficar numa conta ou subconta separada, para não ser confundida com o dinheiro disponível para as compras do dia a dia. Obras de maior dimensão, como substituir janelas, adaptar a habitação ou reparar o telhado, podem exigir um plano de poupança para vários anos.

Que margem deve reservar para saúde?

A saúde deve ter uma categoria própria no orçamento, porque combina despesas regulares com encargos difíceis de antecipar. Os medicamentos habituais devem entrar nas despesas mensais, enquanto consultas, exames, óculos ou tratamentos podem ser pagos através de uma reserva específica.

Para chegar a um valor realista, consulte quanto gastou no último ano. Se paga 50 euros por mês em medicamentos e prevê 480 euros por ano para consultas, exames e cuidados dentários, deve reservar mais 40 euros por mês. Assim, a despesa média com saúde é de 90 euros mensais.

A reserva para saúde deve ser maior quando existem doenças crónicas, tratamentos em curso, limitações de mobilidade ou a possibilidade de vir a precisar de apoio domiciliário. Também deve confirmar quais as despesas suportadas pelo Serviço Nacional de Saúde, por um subsistema de saúde ou pelo seguro, para não contar com coberturas que não estão previstas.

Uma reserva para saúde não substitui o fundo de emergência destinado a outros imprevistos. Uma avaria, uma infiltração ou a franquia de um seguro também podem exigir dinheiro rapidamente.

Quanto guardar para imprevistos?

Não existe um valor adequado a todas as pessoas. Um fundo de emergência equivalente a três a seis meses de despesas essenciais pode servir de referência, mas deve ser ajustado ao rendimento, à saúde, à situação da casa e ao apoio familiar disponível.

Quem vive sozinho, tem uma casa antiga, depende do automóvel ou enfrenta despesas médicas frequentes pode precisar de uma reserva superior. Já quem tem rendimentos complementares e poucos encargos pode necessitar de uma reserva menor.

Este dinheiro deve estar acessível e sem exposição a oscilações significativas de valor. A sua função é evitar que uma emergência obrigue a recorrer a um cartão de crédito, a crédito pessoal ou ao resgate precipitado de um investimento.

Se não conseguir constituir a reserva de imediato, comece por um valor mensal compatível com o orçamento. A regularidade é mais importante do que fixar uma meta tão elevada que não consegue cumprir.

Leia ainda: Como elaborar um orçamento familiar e definir objetivos de poupança

Ter a casa paga, pagar renda ou manter um crédito exige contas diferentes

A habitação é uma das despesas com maior impacto depois da reforma. Duas pessoas com a mesma pensão podem ter margens financeiras muito diferentes consoante tenham a casa paga, vivam num imóvel arrendado ou mantenham um crédito habitação.

Situação

Despesas a considerar

Casa paga

IMI, condomínio, seguro, manutenção, obras e adaptações

Casa arrendada

Renda, possíveis atualizações, mudança e outros encargos contratados

Crédito habitação

Prestação, seguros associados, IMI, condomínio e manutenção

Quem tem a casa paga não deve ignorar os custos de conservação. A substituição de um eletrodoméstico, uma reparação na canalização ou uma obra do condomínio pode absorver uma parte significativa da pensão.

Se vive numa casa arrendada, deve criar margem para eventuais atualizações da renda e avaliar regularmente o peso deste encargo no rendimento líquido. Quando sobra pouco para alimentação, saúde e energia, pode ser necessário avaliar alternativas antes de acumular rendas em atraso.

No crédito habitação, não olhe apenas para a prestação. Divida por 12 os encargos anuais, como o IMI e alguns seguros, e some esse valor à prestação, ao condomínio e aos custos médios de manutenção. Esse total mostra o peso real da casa no rendimento disponível.

Exemplo de um orçamento depois da reforma

Retomando o exemplo anterior, imagine que o casal recebe duas pensões líquidas, uma de 820 euros e outra de 660 euros. No total, entram 1.480 euros por mês. As despesas prioritárias com habitação, alimentação, energia, medicamentos, telecomunicações e transportes somam 890 euros.

Depois destes pagamentos, restam 590 euros. O casal reserva os 150 euros mensais já calculados para os encargos anuais, dos quais 40 euros se destinam a consultas, exames e tratamentos. Acrescenta ainda 80 euros para reforçar o fundo de emergência.

A margem disponível desce para 360 euros. É este o valor que pode ser distribuído por lazer, roupa, refeições fora, presentes e outras compras ajustáveis.

Se o casal gastar os 590 euros sem constituir estas reservas, pode ter dificuldade em pagar um seguro, uma consulta ou uma reparação quando esse encargo surgir.

Leia ainda: Como aliviar o orçamento com a subida do custo de vida

Reveja o orçamento antes de cortar no essencial

Acompanhe o orçamento todos os meses, comparando os valores previstos com as despesas reais e confirmando se as reservas são suficientes. Faça uma revisão mais aprofundada sempre que se alterar o valor da pensão, da renda, da prestação, dos seguros ou das despesas de saúde. Uma mudança na composição do agregado ou a necessidade de apoio domiciliário também justificam novas contas.

Quando o dinheiro não chega, comece por rever comissões bancárias, cartões pouco usados, subscrições, telecomunicações, seguros duplicados e serviços que já não utiliza. Evite cortar primeiro nas despesas essenciais com alimentação, saúde, aquecimento ou mobilidade.

Se recorre regularmente a crédito para pagar faturas, medicamentos ou alimentação, o problema deixou de ser pontual. Os juros aumentam os encargos dos meses seguintes e reduzem ainda mais a margem disponível. Nessa situação, confirme se tem direito a apoios sociais, tarifas sociais ou outros benefícios.

Leia ainda: Planeamento e controlo orçamental: Como rever contas de 2025 e preparar o orçamento para 2026 

Perguntas frequentes

Pode servir como referência, mas não deve ser aplicada de forma rígida. Se as despesas essenciais ultrapassarem 50% da pensão, ajuste as percentagens à sua realidade.

O mais importante é que o orçamento termine equilibrado e permita manter alguma margem para poupança, lazer e objetivos pessoais.

Reveja, pelo menos uma vez por ano, os limites definidos para alimentação, energia, seguros, transportes e lazer. Compare o aumento das despesas com a atualização da pensão.

Se os preços subirem mais do que o rendimento, reduza primeiro os gastos ajustáveis. Mesmo quando a pensão aumenta, a inflação pode diminuir o poder de compra.

Cada casal deve falar sobre as suas finanças e definir como será feita a divisão após a reforma. Porém, as despesas comuns não têm de ser divididas em partes iguais. O casal pode contribuir proporcionalmente ao rendimento líquido de cada pessoa.

Por exemplo, quem recebe 60% do rendimento conjunto suporta 60% das despesas partilhadas.

Esta divisão evita sobrecarregar quem tem a pensão mais baixa e permite reservar algum dinheiro individual para despesas pessoais.

Sim, mas devem ser tratados como rendimentos anuais, e não como dinheiro adicional sem destino. Pode usá-los para financiar viagens, apoiar despesas familiares ou reforçar objetivos de poupança.

Caso sejam necessários para equilibrar as contas correntes, divida o valor por 12 e inclua essa parcela no planeamento mensal.

Sim, quando são regulares ou previsíveis. Defina antecipadamente um limite mensal ou anual e trate essa ajuda como uma despesa ajustável.

Não comprometa o pagamento das suas próprias despesas essenciais nem recorra a crédito para apoiar familiares.

Se a ajuda começar a desequilibrar as contas, deve rever o montante, a frequência ou a duração desse apoio.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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