Casal a fazer crédito habitação

Para muitos portugueses, o reembolso do IRS é uma oportunidade para equilibrarem o orçamento familiar. Muitos utilizam-no para fazer face a despesas periódicas, como o pagamento de impostos ou a manutenção do carro. Mas há quem prefira dar-lhe outro destino e se debata, frequentemente, entre duas opções: pôr esse dinheiro a render num produto financeiro ou usá-lo para amortizar o empréstimo da casa, aliviando, dessa forma, os encargos com a habitação?

A resposta depende, sobretudo, do custo do crédito e do retorno esperado do investimento. Mas não só. Esta é uma decisão que deve ser tomada também com base nas condições de cada crédito e na situação financeira particular dos consumidores. 

De seguida, mostramos-lhe, em detalhe, que critérios considerar antes de optar por uma destas soluções e que contas fazer para saber se é mais vantajoso usar o reembolso do IRS para amortizar o crédito habitação ou investir num produto de poupança.

Como decidir entre amortizar o crédito habitação ou investir o reembolso do IRS? 

Comece por comparar o que paga ao banco pelo dinheiro que pediu emprestado e aquilo que pode ganhar com o investimento. 

No primeiro caso, está em causa a taxa anual de encargos efetiva global (TAEG) do crédito, isto é, o indicador que representa o custo total do empréstimo, incluindo juros, comissões, seguros e impostos. Se a TAEG for superior à rentabilidade líquida que conseguiria obter num investimento, então, amortizar o crédito garante um ganho imediato, correspondente aos juros que está a deixar de pagar.

Por outro lado, se investir num produto financeiro com uma rentabilidade líquida – ou seja, após impostos e comissões – superior à TAEG do crédito, poderá fazer mais sentido aplicar esse dinheiro. A tabela abaixo reflete estes cenários:

Crédito habitação (TEAG)

Produto financeiro (rentabilidade líquida)

Decisão

4,5%

1,5% (Depósito a prazo)

Amortizar

3,7%

6% (Ações)

Investir

4%

4% (ETF)

Depende do perfil de risco

Usar o reembolso do IRS para amortizar crédito: Quando faz mais sentido? 

Sobretudo quando as taxas de juro estão a subir, amortizar o crédito habitação pode ser uma boa estratégia financeira. Ao reembolsar parte do crédito, está a reduzir o capital em dívida e isso tem dois efeitos imediatos:

  1. Diminui o montante de juros a pagar ao longo do tempo;
  2. Pode fazer descer a prestação mensal – em alternativa, pode manter a prestação e encurtar o prazo do empréstimo, o que aumenta ainda mais a poupança total em juros. 

Além disso, ao reduzir a dívida, ficará menos sujeito à incerteza, especialmente se tiver um crédito com taxa variável.

Ainda assim, é importante lembrar que a amortização antecipada implica custos. Os bancos cobram uma comissão de 0,5% do capital amortizado, em contratos com taxa variável, e de 2%, em créditos com taxa fixa.

E se tiver mais do que um crédito? 

Além do crédito habitação tem outros empréstimos – um crédito pessoal, por exemplo – e questiona-se sobre qual deles deve amortizar primeiro? Vejamos:

  • Para baixar a prestação, no imediato, amortize o crédito com a taxa de juro mais elevada e o menor montante;
  • Se preferir reduzir o total de juros a pagar ao banco, a melhor forma de atingir esse objetivo é amortizar o crédito mais longo e com mais capital em dívida.

O que fazer se decidir amortizar 

Se avançar com a amortização, dependendo do tipo de crédito, deverá comunicar ao banco essa intenção com a seguinte antecedência

  • Crédito à habitação: pelo menos, sete dias úteis antes da data de cobrança da prestação. Se a amortização for total, o aviso tem de ser feito com dez dias úteis de antecedência.  
  • Crédito ao consumo: deve avisar a instituição de crédito com 30 dias de antecedência. 

Depois de receber o seu pedido, o banco deverá informá-lo sobre o impacto da amortização, incluindo o valor que passará a pagar pela prestação.  

Leia ainda: Como pedir crédito de forma responsável

Em que situações investir o reembolso do IRS pode compensar mais? 

Aplicar o reembolso do IRS em produtos financeiros pode ser uma opção mais vantajosa quando o custo do crédito é relativamente baixo. Mas optar por produtos com capital garantido, como depósitos a prazo ou Certificado de Aforro, dificilmente garantirá um rendimento atrativo.

Produtos como ações, obrigações ou ETF podem gerar retornos mais elevados no longo prazo. No entanto, esse potencial vem acompanhado de risco e pode mesmo resultar em perdas. Como tal, investir o reembolso do IRS pode fazer mais sentido para aplicações de longo prazo.

Em suma, vale a pena investir se:

  • O rendimento líquido do produto for superior à TAEG do crédito;
  • Pretender investir durante um horizonte temporal de, pelo menos, cinco ou mais anos; 
  • Tiver um perfil de investidor confortável com risco e, assim, beneficiar de retornos potenciais mais elevados. 

Exemplo prático: Devo amortizar ou investir?

Para perceber como fazer as contas sem esquecer nenhuma variável, considere o seguinte exemplo:

Reembolso de IRS: 3.000€

Capital em dívida no crédito habitação: 125.000€
Prazo remanescente: 20 anos
TAEG: 4,2%
TAN: 3%
Prestação: 693,25€
Prestação após amortização: 676,61€

Poupança mensal: 16,64 €
Poupança anual: 199,68€

Além da redução na prestação, há ainda que contar com uma descida de cerca de 1.000 euros no custo total do empréstimo. Por outro lado, tratando-se de um crédito com taxa variável, a amortização está sujeita a uma comissão de 0,5%, totalizando, neste caso, 15 euros. Se o contrato tivesse taxa fixa, esse encargo seria de 2%, ou seja, 60 euros. Este custo deve ser incluído na análise, embora, na maioria dos casos, não anule a vantagem da amortização. 

Investimento num depósito a prazo a 12 meses
TANL: 1,5%
Total de juros em 12 meses: 45 euros

Neste caso, verifique se se aplicam comissões e outras despesas ao produto de poupança que escolher. Por vezes, e sobretudo quando o retorno é baixo, os encargos a suportar podem superar os ganhos obtidos. 

Resultado: Neste exemplo, amortizar o crédito habitação seria a opção mais vantajosa, já que a poupança anual obtida é mais de quatro vezes superior ao rendimento potencial do investimento.

Quatro fatores que também devem pesar na decisão 

Embora a comparação entre as taxas de juro seja central, há outros fatores que podem, e devem, influenciar a sua escolha. Eis quatro questões que não deve ignorar:

1. Ter um fundo de emergência  

Antes de avançar com a amortização ou o investimento, deve garantir que tem um fundo de emergência, para eventuais imprevistos – ou seja, um montante equivalente a seis meses de despesas fixas, que possa usar num momento de maior vulnerabilidade. Esse montante deve ser aplicado num produto de poupança com capital garantido, que possa mobilizar a qualquer momento.

 2. Taxa de esforço sustentável

O seu nível de endividamento também deve ser tido em consideração ao decidir como usar o reembolso do IRS. A sua taxa de esforço, ou seja, a percentagem do seu rendimento mensal que é canalizada para pagar as prestações do crédito não deve ultrapassar os 35%. Por isso, se for superior, amortizar pode ser a forma mais eficaz de recuperar equilíbrio financeiro. 

 3. Momento do crédito  

Nos primeiros anos de um crédito habitação, a maior parte da prestação corresponde a juros. Isso significa que amortizar nessa fase tem maior impacto. À medida que o crédito avança, esse impacto diminui. Nos últimos anos, o peso dos juros será bastante menor, logo, o potencial de poupança resultante de uma amortização, também.

 4. O seu perfil de risco  

O seu perfil de investidor também é um fator determinante. Quem valoriza estabilidade e previsibilidade tenderá a preferir amortizar, reduzindo assim a dívida ao banco. Já quem está mais disponível para aceitar oscilações, em troca de um rendimento potencial mais atrativo, estará mais inclinado para investir. 

Leia também: Reembolso de IRS pode ser menor em 2026. Saiba porquê

Perguntas frequentes

Deve comparar a TAEG do crédito com a rentabilidade líquida do investimento. Se a TAEG for superior, amortizar tende a ser mais vantajoso; se a rentabilidade líquida do produto financeiro for maior, investir pode compensar.

Sim. Amortizar o crédito habitação permite reduzir o capital em dívida, diminuir os juros totais a pagar, além de poder resultar numa prestação mensal mais baixa.

A comissão de amortização é de 0,5% do capital amortizado, em créditos com taxa variável, e de 2%, em créditos com taxa fixa.

Depende do perfil do investidor e do horizonte temporal. Produtos mais conservadores incluem depósitos a prazo e Certificados de Aforro; opções com maior potencial de retorno incluem fundos de investimento, ETF, ações ou obrigações.

O fundo de emergência é um montante equivalente a cerca de seis meses de despesas fixas, para lidar com imprevistos. Esse dinheiro deve estar aplicado num produto com capital garantido e facilmente mobilizável.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

Finanças pessoaisImpostosIRSLiteracia FinanceiraTaxas de Juro