Sabe que devia começar a poupar, fechar aquela conta à ordem com comissões de manutenção ou comparar as condições do seu crédito habitação, mas acaba sempre por deixar essas decisões para mais tarde? Entre a falta de tempo e o cumprimento de outras obrigações, adiar tarefas que podem contribuir para melhorar a saúde das suas finanças é um comportamento mais comum do que possa imaginar.
O problema é que saber o que devemos fazer com o dinheiro não significa que o façamos. Mesmo quando reconhecemos a importância de uma decisão, podemos ter dificuldade em passar da teoria à ação. Este comportamento, que pode designar-se de procrastinação financeira, ajuda a explicar por que motivo nem sempre aplicamos os conhecimentos que temos sobre gestão do dinheiro.
Mas o que nos impede de agir? E como podemos ultrapassar estes obstáculos? Perceber os mecanismos que estão por detrás das nossas decisões é um primeiro passo para mudar. Neste artigo, exploramos alguns conceitos relacionados com a procrastinação financeira e lançamos-lhe alguns desafios práticos para a ultrapassar.
Porque é que adiamos decisões financeiras importantes?
Saber que devemos poupar para a reforma, controlar as despesas ou organizar o orçamento não significa que consigamos fazê-lo de forma consistente. Entre a intenção e a ação existe, muitas vezes, uma distância nem sempre fácil de encurtar.
Esta dificuldade é conhecida como “fosso entre intenção e comportamento” e é abordada no estudo O Bem-Estar Financeiro em Portugal: Uma Perspetiva Comportamental, desenvolvido em 2024 pelo Doutor Finanças, em parceria com a Laicos – Behavioural Change.
O estudo chama a atenção para um desafio importante: querer melhorar a vida financeira não garante que adotemos os comportamentos necessários para o conseguir. Para perceber porquê, é útil olhar para três fatores que influenciam a nossa capacidade de agir.
Capacidade, oportunidade e motivação: Os três fatores que influenciam o comportamento
O estudo recorre a um modelo teórico que explica o comportamento a partir de três variáveis: capacidade, oportunidade e motivação. Aplicado às finanças pessoais, esta abordagem ajuda a compreender por que motivo duas pessoas com objetivos semelhantes podem agir de formas diferentes.
Fator | O que significa | Exemplos |
Capacidade | Ter os conhecimentos e as competências necessários para agir. | Saber analisar as despesas, organizar um orçamento ou definir um objetivo de poupança realista. |
Oportunidade | Ter condições práticas para concretizar uma decisão. | Dispor de tempo para rever as contas ou ter margem financeira para reservar algum dinheiro. |
Motivação | Ter vontade de agir e conseguir manter essa intenção perante outras prioridades. | Dar prioridade à poupança em vez de usar o montante em causa numa despesa não essencial. |
Estes três fatores estão relacionados e podem ajudar a explicar diferentes obstáculos à mudança. Por exemplo:
- Uma pessoa pode querer criar um fundo de emergência, mas não saber quanto deve reservar por mês nem como organizar o orçamento familiar. Neste caso, precisa de desenvolver conhecimentos e competências;
- Outra pode saber exatamente o que fazer, mas adiar a tarefa por falta de tempo;
- Há ainda quem tenha condições para começar a poupar, mas acabe por dar prioridade a outras despesas.
Nem todas estas situações se resolvem da mesma forma. Identificar o obstáculo é importante para perceber qual poderá ser o primeiro passo.
Obstáculo | Como ultrapassá-lo |
Falta de conhecimento | Procurar informação fiável, investir em formação em literacia financeira |
Falta de motivação | Definir um objetivo concreto, perceber para que quer poupar e estabelecer uma ação específica para começar. |
Falta de tempo | Dividir uma tarefa complexa em etapas pequenas e reservar alguns minutos para dar o primeiro passo. |
Além de identificar estes obstáculos, também é importante reconhecer que nem sempre existe margem financeira para poupar. Quando o rendimento mal chega para cobrir as despesas essenciais, as dificuldades podem não se resumir à falta de motivação ou de organização. Ainda assim, procure analisar o seu orçamento e verificar se existem despesas ou encargos que possam ser ajustados. Se não tiver, de todo, margem, o objetivo de poupar pode mesmo ter de ser adiado para outro momento.
Valorizar a recompensa imediata em vez do benefício futuro
Outro mecanismo que ajuda a compreender o adiamento é a tendência para valorizar mais as recompensas imediatas do que os benefícios futuros. Na economia comportamental, esta tendência é frequentemente associada ao conceito de “desconto hiperbólico”.
Nas finanças pessoais, esta preferência pode manifestar-se de várias formas:
- Preferimos receber 100 euros agora do que 115 euros daqui a um ano;
- Optamos por fazer uma compra que proporciona satisfação imediata em vez de reforçar a poupança, pois o benefício só será sentido mais tarde;
- Rever um contrato pode parecer uma tarefa pouco apelativa e por isso é adiada, mesmo quando existe a possibilidade de encontrar soluções mais económicas.
Estes comportamentos ajudam a explicar, por exemplo, os baixos níveis de poupança para a reforma ou a dificuldade em manter investimentos a longo prazo. Quando esta tendência se junta à falta de tempo, à incerteza ou à dificuldade em saber por onde começar, decisões importantes podem continuar a ser adiadas indefinidamente.
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Saber mais sobre dinheiro não chega para melhorar as finanças
Conhecer as regras básicas de gestão do dinheiro é importante, mas nem sempre se traduz em melhores decisões financeiras. Pode saber que deve controlar as despesas, criar um fundo de emergência ou evitar acumular dívidas e, ainda assim, ter dificuldade em pôr esses conhecimentos em prática.
Esta diferença entre saber e fazer ajuda a compreender a relação entre literacia financeira e bem-estar financeiro. A conclusão a retirar não é que o conhecimento tenha pouca importância, mas que saber o que fazer é apenas uma parte do processo. Para melhorar a gestão do dinheiro, é necessário conseguir transformar esse conhecimento em decisões concretas.
Da literacia financeira ao bem-estar financeiro
A literacia financeira permite compreender conceitos, avaliar opções e tomar decisões mais informadas sobre o dinheiro. No entanto, o bem-estar financeiro não depende apenas daquilo que sabe. A forma como gere o seu orçamento familiar, poupa e lida com as dívidas também é relevante. Isso sem esquecer as condições económicas e pessoais de cada um, que influenciam as opções disponíveis e a capacidade de concretizar determinados objetivos.
Por exemplo, saber que é importante criar um fundo de emergência não significa que consiga fazê-lo de imediato. Uma pessoa pode conhecer essa recomendação, mas ter um rendimento que mal chega para pagar a habitação, a alimentação e outras despesas essenciais. Outra pode dispor de alguma margem financeira, mas não conseguir reservar dinheiro de forma regular porque não definiu um objetivo ou não estabeleceu uma rotina.
O ponto de partida é diferente nos dois casos:
- No primeiro, a prioridade pode passar por avaliar o orçamento e procurar formas de aliviar os encargos, quando existam alternativas viáveis;
- No segundo, pode ser útil definir um valor compatível com as possibilidades financeiras e criar um método para poupar com regularidade.
Assim, melhorar as finanças pessoais não passa apenas por adquirir mais conhecimentos, mas também por perceber como aplicá-los ao seu caso concreto.
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Procrastinação financeira: O custo de adiar decisões
Adiar uma decisão financeira nem sempre tem consequências imediatas. No entanto, deixar determinadas tarefas para mais tarde pode traduzir-se em custos evitáveis a longo prazo.
Adiar a poupança pode atrasar os seus objetivos
Se quiser juntar dinheiro para uma viagem, substituir um eletrodoméstico ou criar um fundo de reserva para imprevistos, adiar o início da poupança pode obrigá-lo a prolongar o prazo para concretizar esse objetivo. Imagine que pretende juntar 600 euros para uma despesa prevista para daqui a um ano.
- Se começar a reservar 50 euros por mês, poderá atingir esse valor em 12 meses.
- Se começar apenas três meses depois, terá de poupar cerca de 67 euros mensais para atingir o mesmo objetivo nos nove meses seguintes.
Da mesma forma, se esperar pelo final do mês para perceber quanto dinheiro sobra para poupar, pode acabar por não reservar qualquer quantia. Definir antecipadamente um valor para a poupança – 5%, 10% ou 20% do salário, por exemplo – e programar uma transferência automática pode ajudar a criar uma rotina.
Não rever despesas e contratos pode prolongar encargos desnecessários
Subscrições que já não utiliza, pacotes de telecomunicações com serviços desnecessários, seguros que nunca mais reviu… Se não analisar com alguma regularidade as suas despesas e contratos, pode estar a suportar encargos que já não correspondem às suas necessidades.
Isso não significa que haja sempre opções mais baratas à sua disposição ou que uma mudança compense em qualquer circunstância. Daí que, antes de cancelar ou substituir um serviço, deva:
- Comparar condições;
- Considerar eventuais custos de cancelamento;
- Confirmar se a alternativa responde às suas necessidades.
Reservar algum tempo para rever uma despesa de cada vez pode ajudar a tornar esta tarefa mais simples.
Adiar a análise das suas finanças pode dificultar a identificação de soluções
Se começa a ser difícil pagar as prestações de um empréstimo ou se recorre regularmente ao cartão de crédito para suportar despesas correntes, é importante perceber o que está na base dessas dificuldades.
Adiar essa análise pode agravar a situação. Rever os encargos e contactar a instituição de crédito para conhecer as opções disponíveis – como a renegociação ou consolidação de crédito, por exemplo – são possíveis primeiros passos. Quanto mais cedo agir, mais rapidamente poderá avaliar as alternativas disponíveis.
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Seis desafios financeiros para fazer em 10 minutos
Quando uma tarefa parece demasiado complexa ou exige algum tempo, acaba, muitas vezes, por ser adiada. Uma forma de ultrapassar esta dificuldade é simplificar. Em vez de tentar reorganizar as finanças pessoais de uma só vez, pode começar por dedicar 10 minutos a uma tarefa concreta. Esta tanto pode permitir iniciar uma mudança concreta, como identificar uma oportunidade ou, somente, definir o que precisa de fazer a seguir.
Se não sabe por onde começar, experimente concretizar uma destas seis tarefas:
Desafio | O que pode fazer em 10 minutos | Objetivo |
Rever as despesas | Consulte os movimentos bancários do último mês e identifique uma compra ou despesa do dia a dia que poderia ter evitado ou reduzido. | Perceber se existe algum hábito de consumo que possa ajustar para libertar dinheiro no orçamento. |
Definir um objetivo de poupança | Escolha um objetivo, como criar uma reserva para imprevistos ou juntar dinheiro para uma despesa futura. | Dar um propósito à poupança e perceber quanto poderá precisar de reservar. |
Preparar a poupança | Estime quanto pode reservar por mês para a poupança. | Estabelecer um valor realista e adequado ao orçamento. |
Automatize a poupança | Se a sua conta bancária o permitir, configure uma transferência periódica para a poupança. | Tornar a poupança mais regular e reduzir o risco de a adiar. |
Rever uma despesa recorrente | Confirme se há algum serviço ou subscrição pelo qual paga todos os meses que seja dispensável ou possa ser substituído. | Reduzir encargos. |
Escolher um contrato para analisar | Identifique um crédito, seguro ou outro contrato que queira rever e anote o próximo passo necessário. | Rreduzir encargos ou melhorar as condições contratadas. |
Escolher um desafio e concluí-lo pode ser mais útil do que elaborar uma lista extensa de tarefas que acaba por não realizar.
Defina o próximo passo antes de terminar
Depois de concluir a tarefa escolhida, pense no que precisa de fazer a seguir. Por exemplo, se definiu um objetivo de poupança, pode calcular quanto precisa de juntar e em que prazo, tendo em conta os seus rendimentos e despesas.
Sempre que possível, associe a próxima tarefa a um momento concreto. Em vez de decidir que vai rever os contratos “quando tiver tempo”, escolha um dia para o fazer. Esta abordagem ajuda a tornar as intenções mais palpáveis, reduzindo o risco de as voltar a adiar.
Pequenas ações podem ajudar a criar novos hábitos financeiros
Nem sempre o conhecimento se traduz em ação, daí que seja importante identificar os obstáculos que estão na base da inércia e encontrar formas de os ultrapassar.
Saber que poupar é importante é um primeiro passo. O seguinte é perceber o que o impede de agir e encontrar uma forma de começar, dentro das suas possibilidades. Quando existe margem para o fazer, uma pequena decisão tomada hoje pode ajudar a construir hábitos financeiros mais consistentes para o futuro. O importante é que as decisões sejam adequadas à sua realidade financeira e que, sempre que possível, se traduzam em comportamentos que consiga manter ao longo do tempo.
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Perguntas frequentes
A procrastinação financeira consiste em adiar decisões ou tarefas relacionadas com a gestão do dinheiro, mesmo quando sabemos que são importantes. Pode manifestar-se, por exemplo, ao deixar para mais tarde a organização do orçamento, o início da poupança ou a revisão de um contrato.
Podemos adiar decisões financeiras por diferentes motivos, como falta de tempo, dificuldade em saber por onde começar ou tendência para dar prioridade a recompensas imediatas em vez de benefícios futuros. O contexto financeiro também influencia a capacidade de agir, sobretudo quando não existe margem para poupar.
A literacia financeira é a capacidade de compreender conceitos e produtos financeiros e de utilizar esse conhecimento para tomar decisões informadas sobre o dinheiro. Inclui competências como gerir um orçamento, avaliar opções de crédito, poupar e planear o futuro.
Comece por analisar os rendimentos e as despesas para perceber se existe margem para poupar. Se for possível, defina um montante mensal realista e estabeleça um objetivo concreto. Automatizar a transferência para uma conta separada pode ajudar a manter a regularidade da poupança.
Não existe um valor adequado a todas as pessoas. O montante depende dos rendimentos, dos encargos financeiros e dos objetivos de cada um. O mais importante é definir uma quantia compatível com o orçamento, sem comprometer o pagamento das despesas essenciais.
