Ao longo do século XX, a aquisição da casa própria constituiu um verdadeiro projeto de vida para inúmeras famílias portuguesas, simbolizando segurança, estabilidade e prosperidade. Hoje, porém, a sociedade portuguesa atravessa uma transformação profunda que redefine paradigmas demográficos, sociais e jurídicos, exigindo uma reflexão renovada sobre a forma como o património habitacional é transmitido, gerido e preservado perante as novas realidades familiares e económicas.
Portugal figura entre os países mais envelhecidos da União Europeia, com mais de 2,5 milhões de cidadãos com 65 anos ou mais. A combinação do aumento da esperança média de vida com a baixa natalidade intensifica esta tendência. Paralelamente, cresce a diversidade dos arranjos familiares: multiplicam-se os agregados monoparentais e unipessoais, enquanto os casais sem filhos representam uma fatia cada vez mais expressiva.
Este cenário rompe com o modelo tradicional – casal com vários descendentes – em que a transmissão de património seguia uma linha direta e previsível. A ausência de herdeiros ou a dispersão dos vínculos familiares gera fragmentação e bloqueio sucessório, dificultando a preservação do valor económico e simbólico dos imóveis, que para os portugueses continuam a representar um forte vínculo identitário e emocional.
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Desafios na fragmentação e gestão do património
O aumento do número de herdeiros distantes, as situações de compropriedade prolongada e os imóveis devolutos ilustram os entraves à gestão consensual. Sem planeamento sucessório, o risco de litígios familiares, processos judiciais morosos e perdas patrimoniais é elevado.
A baixa literacia financeira agrava o problema, dificultando soluções que conciliem interesses afetivos e patrimoniais. Consequentemente, muitos imóveis perdem valor, permanecem inativos ou entram em processos de degradação que penalizam não apenas as famílias, mas também o tecido económico e urbano.
Perante este cenário, impõe-se repensar e modernizar os instrumentos de transmissão patrimonial. Entre as soluções mais relevantes destacam-se:
- Doações em vida com reserva de usufruto: antecipam a transmissão, assegurando simultaneamente a proteção do doador.
- Testamentos adaptados a realidades complexas: permitem contemplar famílias reconstituídas ou a ausência de descendentes diretos.
- Sociedades familiares ou holdings patrimoniais: estruturam a gestão conjunta, promovendo transparência e eficiência fiscal.
- Modelos alternativos, como usufrutos vitalícios a terceiros ou fundações familiares: preservam o património, asseguram rendimentos e evitam dispersão.
Estes instrumentos já se afirmaram em países como França, Espanha, Itália, Reino Unido ou Estados Unidos, onde a flexibilidade e a segurança jurídica na sucessão permitem manter o património como um ativo vivo, sustentável e gerador de valor.
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