É o primeiro aumento em quase três anos. Esta quinta-feira, 11 de junho, o Banco Central Europeu (BCE) aumentou as taxas de juro de referência em 25 pontos base, passando a taxa dos depósitos de 2% para 2,25%. Num momento em que a guerra no Médio Oriente impulsiona os preços para lá dos custos da energia, a decisão da autoridade monetária visa controlar a inflação na Zona Euro, que subiu para 3,2% em maio – o nível mais elevado em mais de dois anos e meio.
Para contrariar este cenário, o BCE diz-se “empenhado em definir a política monetária de modo a assegurar que a inflação estabiliza no objetivo de 2% a médio prazo”. No entanto, as projeções macroeconómicas mais recentes denotam algum pessimismo. O banco central admite que os preços elevados da energia vão “repercutir-se na inflação dos preços dos produtos alimentares, dos bens e dos serviços“. Neste contexto, reviu em alta a previsão para a inflação e antecipa um crescimento económico mais reduzido do que o projetado em março deste ano.
Subida dos juros pode repetir-se?
Depois de sete reuniões em que não houve mexidas nas taxas de juro, junho trouxe um aperto na política monetária do BCE. “A guerra no Médio Oriente está a gerar pressões inflacionistas e a decisão de aumentar as taxas de juro apresenta-se robusta face a um conjunto de cenários”, refere o BCE em comunicado. Além da taxa de referência (aplicável aos depósitos), que passou de 2% para 2,25%, a taxa de refinanciamento aumentou de 2,15% para 2,4%, e a taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez, de 2,4% para 2,65%.
A subida, em vigor a partir de 17 de junho, já era esperada pelos mercados financeiros, sendo que alguns analistas admitem a possibilidade de novos aumentos durante este ano.
Projeções para a Zona Euro: Inflação sobe, crescimento desce
O organismo liderado por Christine Lagarde mostra-se também mais pessimista em relação à inflação. Depois de, em março, as projeções apontarem para uma inflação global de 2,6% em 2026, este valor foi, entretanto, revisto em alta para 3%. Já para 2027, o valor esperado é 2,3%, e, em 2028, 2%. Embora a guerra no Médio Oriente esteja na base desta pressão inflacionista, o aumento dos preços não se limita à energia. A inflação subjacente – isto é, excluindo os produtos energéticos e alimentares – subiu de 2,2% para 2,5%, em maio, enquanto a inflação dos serviços passou de 3,0% para 3,5%.
A este propósito, o BCE afirma que “as plenas implicações da guerra para a inflação e o crescimento a médio prazo dependerão da intensidade e da duração do choque sobre os preços dos produtos energéticos, assim como da magnitude dos seus efeitos indiretos e de segunda ordem”.
E frisa que as perspetivas se mantêm “incertas, com riscos em sentido ascendente para a inflação e em sentido descendente para o crescimento económico“. Neste sentido, revela que o crescimento económico esperado para 2026, 2027 e 2028, será, em média, de 0,8%, 1,2% e 1,5%, respetivamente – valores que representam uma revisão em baixa para 2026 e 2027.
Como é que as taxas diretoras influenciam a Euribor?
As taxas diretoras do BCE representam o custo a que os bancos podem obter financiamento junto do banco central. Quando estas sobem, tende a aumentar também o custo do dinheiro no mercado interbancário, onde os bancos emprestam fundos entre si. É neste contexto que se formam as expectativas do mercado em relação à Euribor, utilizada como indexante em muitos contratos de crédito habitação em Portugal.
Ou seja, embora a Euribor não seja definida pelo BCE, as decisões do banco central e as expectativas dos mercados relativamente à evolução das taxas de juro tendem a refletir-se neste indexante. Logo, quando se esperam novas subidas das taxas diretoras, a Euribor tende a refletir, e antecipar, esse movimento.
Qual o impacto da subida dos juros no crédito habitação?
Os efeitos desta subida esperada já tinham começado a fazer-se sentir nas prestações do crédito habitação. Antecipando o aumento das taxas de juro, a Euribor iniciou uma rota ascendente logo após o início do conflito no Médio Oriente. A maior subida verificou-se na Euribor a 12 meses, cujo valor médio em maio (última atualização) se encontrava nos 2,8%, mais 0,58 pontos percentuais do que em fevereiro, nas vésperas do início da guerra. Já no prazo a 6 meses, o aumento foi de 0,4 pontos, de 2,14% para 2,54%. Por fim, a taxa a 3 meses passou de 2,01% para 2,23%, registando a menor subida (0,22 pontos).
Assim, é esperado que as prestações de crédito habitação com taxa variável continuem a sofrer aumentos. Por exemplo, para um financiamento de 200 mil euros, revisto em maio deste ano, com prazo remanescente de 30 anos e spread de 0,9%, o agravamento da Euribor a 12 meses representou um encargo adicional de 80 euros.
Mas a subida das taxas de juro não se reflete somente nas prestações do crédito habitação. Pode também ter um efeito positivo na poupança. Em regra, quando as taxas de juro sofrem um aumento, isso pode traduzir-se numa melhoria da remuneração dos depósitos a prazo e de outros produtos de poupança. Ainda assim, normalmente, este ajustamento costuma ser mais lento e menos expressivo do que aquele que ocorre no crédito.
Simule: Simulador Prestação Crédito Habitação | Calcule a sua mensalidade
Perguntas frequentes
São as taxas que orientam a política monetária da Zona Euro. Entre elas estão a taxa aplicável à facilidade permanente de depósito, a taxa das operações principais de refinanciamento e a taxa da facilidade permanente de cedência de liquidez. As decisões sobre estas taxas influenciam o custo do dinheiro na economia.
O principal objetivo é controlar a inflação. Ao aumentar as taxas diretoras, o BCE torna o crédito mais caro, o que tende a reduzir o consumo e o investimento. Com menor procura na economia, a pressão sobre os preços poderá diminuir, contribuindo para que a inflação regresse ao objetivo de 2%.
Embora o BCE não defina diretamente a Euribor, as suas taxas diretoras condicionam o custo do dinheiro na economia. Por isso, as expectativas dos mercados relativamente à política monetária acabam por refletir-se nos indexantes utilizados nos contratos de crédito habitação.
Não. Nos contratos com taxa variável, a prestação só é atualizada na data de revisão prevista no contrato. Assim, se o seu crédito estiver indexado à Euribor a seis meses, por exemplo, a prestação apenas será revista de seis em seis meses, tendo por base o valor do indexante na data definida pelo banco.
Pode beneficiar. Em períodos de juros mais elevados, os bancos tendem a aumentar a remuneração dos depósitos a prazo e de alguns produtos de poupança. No entanto, essa transmissão costuma ser mais lenta e menos intensa do que no crédito.
