Este texto bem podia começar pelas duas primeiras linhas de um tema gravado em 1977: “Eu sei lá / Se tu te estás bem nas tintas para aquilo que eu vou dizer”. Mesmo assim, prosseguimos, recuando até aos primeiros álbuns de Jorge Palma, à descoberta de canções menos conhecidas que, passadas tantas décadas, ainda possam ter eco nas nossas vidas.
Jorge Palma – «Eu sei lá» (1977)
No segundo álbum de originais, Jorge Palma quer-nos contar uma história, mesmo que não estejamos interessados em ouvi-la. É sobre “um homem vulgar que se convenceu que um dia um dia havia de enriquecer”; um tipo comum, que andou a saltitar de lugar e passou a vida a trabalhar. Para quê? “Para poder comprar um caixão de luxo e adormecer”.
Aos que preferem assobiar para o lado perante inegáveis futilidades, ou perder-se na bebida para esquecer a finitude da existência humana, o narrador insiste numa pergunta: “uma jogada financeira chega para fazer alguém enlouquecer”? Ele próprio dá uma resposta, já que “existem muitas maneiras de enganar os cegos que não querem ver”. À custa dessa cegueira voluntária, nada muda. “Neste preciso momento, os magnates do cimento discutem sobre a morte de mais um pomar.”
E agora, neste nosso tempo? Estará a realidade muito diferente? Estaremos realmente preocupados com as alterações climáticas? Menos obcecados com o enriquecer? Eu sei lá…, como diz a canção. Se atentarmos nos últimos versos, talvez esteja tudo na mesma: “Num gabinete fechado, os donos de um outro mercado, decidem onde e quando a guerra vai começar.” Isto não podia ser notícia de hoje?
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Jorge Palma – “Qualquer coisa para a música” (1979)
Dois anos depois, Jorge Palma tinha algo a dizer sobre a vida de artista, especialmente dos tempos em que tocava na rua. O pedido – e a letra – era direto e simples: “qualquer coisa para a música”. A quantia que se desse, na verdade, seria pouco relevante; tanto lhe fazia se fosse “cinco mil reis, uma coroa ou um tostão”. O mais importante era a intenção. Por isso, até quem não deixava moedas tinha o seu valor.
Mas se não tens dinheiro,
Deixa lá, meu irmão,
Se a nossa companhia te animou,
Valeu a pena a canção.
Quem cantava fazia-o por gosto. Por vontade de alegrar os outros.
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Jorge Palma – “Quero o meu Dinheiro de Volta” (1979)
Uma coisa eram as pessoas que se juntassem ao redor de um cantautor, para lhe escutar a melodia da guitarra e a voz rouca. Se pudessem dar uma moeda, agradecia-se; se não pudessem, amigos à mesma. Porém, Jorge Palma também conhecia outro tipo de pessoas: “Tanta gente a dar-me a volta, Não foi para isto que eu vim cá.” Para esses, os mal-intencionados, a mensagem endurecia:
Quero o meu dinheiro de volta
Não é tarde, nem é cedo
Quero o meu dinheiro já
O retrato feito pelo narrador é o de um lugar onde uns andam a enganar os outros. E onde bastantes fecham os olhos e silenciam a boca, deixando-se corromper. “Diz-se agora muito por aí, Que a gente vive em liberdade, Pois vamos lá abrir o jogo, Anda cá tu dizer-nos o que vês quando estás bem acordado. Huum, és logo posto de lado, Isto é se não fores comprado.”
Este “raio de fardo” a pesar nas costas tinha algumas origens concretas, como a hipocrisia do sacerdote que ergue as mãos para o céu, enquanto assegura que Deus olha pelo seu rebanho, mas que tem interesses velados na Terra. “Eeeh, o que ele pretende, É dar um ar inocente, Àqueles com quem ele se entende.” Porém, será ao ver os velhos no jardim – enganados, desesperados, abandonados –, que a frustração do letrista atinge o auge:
Aquilo é que é ter pouca sorte
O que é que eles vão fazer à vida
A casa onde eles sempre viveram
Teve que ser demolida
Aah, mas que partida
E a reforma auferida
É que não lhes chega para a comida
O tema foi gravado em 1979. Apetece voltar a perguntar: mudou assim tanto?
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