Ter dois créditos pessoais é possível em Portugal. A lei não define um número máximo de financiamentos que uma pessoa pode ter em simultâneo. Ainda assim, isso não significa que qualquer pedido seja aprovado automaticamente. Sempre que pede um novo empréstimo, o banco é obrigado a avaliar se continua a existir capacidade financeira para assumir mais uma prestação sem aumentar demasiado o risco de incumprimento.
Antes de conceder outro crédito, as instituições analisam vários fatores, como os rendimentos, a estabilidade profissional, o histórico bancário e os encargos já existentes. O ponto mais importante nesta avaliação é a taxa de esforço. Quanto maior for esta taxa, menor tende a ser a probabilidade de aprovação de um segundo financiamento.
Pode ter dois créditos pessoais, mas há limites
Não existe uma regra que impeça um consumidor de ter dois créditos pessoais ao mesmo tempo. O segundo financiamento pode ser pedido no mesmo banco ou noutra instituição autorizada a conceder crédito em Portugal.
Contudo, a aprovação depende da análise de risco feita pela entidade financeira. O banco avalia os rendimentos, a estabilidade profissional, o histórico de pagamentos, os encargos mensais e as responsabilidades registadas no Banco de Portugal.
Além disso, as instituições devem seguir as recomendações macroprudenciais do Banco de Portugal, que indicam que, regra geral, não deve ser concedido um novo crédito quando a taxa de esforço ultrapassa os 50%.
Taxa de esforço pode impedir um segundo crédito pessoal
A taxa de esforço mostra quanto do rendimento mensal líquido já está comprometido com prestações de créditos. Para fazer este cálculo, os bancos somam todos os encargos mensais com financiamentos e dividem esse valor pelo rendimento líquido do agregado familiar.
Na prática, quanto mais elevada for a taxa de esforço, maior é o risco de o pedido ser recusado. Embora existam exceções avaliadas caso a caso, as recomendações do Banco de Portugal indicam que os bancos não devem conceder novos créditos quando a taxa de esforço ultrapassa os 50%.
Para perceber melhor, apresentamos três cenários.
Cenário 1: Taxa de esforço confortável
Rendimento líquido | Prestações atuais | Nova prestação | Taxa de esforço final |
2.000 euros | 450 euros | 180 euros | 31,5% |
Neste exemplo, o cliente continuaria com uma taxa de esforço considerada equilibrada. Apesar de o novo crédito aumentar os encargos mensais, o peso das prestações no orçamento mantém-se relativamente controlado.
Cenário 2: Aprovação mais difícil
Rendimento líquido | Prestações atuais | Nova prestação | Taxa de esforço final |
1.650 euros | 620 euros | 180 euros | 48,5% |
Aqui, a taxa de esforço fica muito próxima do limite recomendado. Mesmo sem ultrapassar os 50%, o banco pode considerar que existe um risco elevado, sobretudo se houver despesas familiares relevantes, contratos de trabalho instáveis ou ausência de poupança.
Cenário 3: Pedido com forte probabilidade de recusa
Rendimento líquido | Prestações atuais | Nova prestação | Taxa de esforço final |
1.800 euros | 700 euros | 260 euros | 53,3% |
Neste caso, o novo crédito faria a taxa de esforço ultrapassar os 50%. Regra geral, as instituições financeiras não podem conceder financiamento nestas condições, porque o peso das prestações é considerado demasiado elevado para o rendimento disponível.
Nota: Caso precise de ajuda para estes cálculos, pode recorrer ao simulador da taxa de esforço.
O banco consegue ver todos os meus créditos?
Sim. Sempre que pede um novo financiamento, as instituições consultam a Central de Responsabilidades de Crédito, uma base de dados gerida pelo Banco de Portugal. O mapa de responsabilidades do Banco de Portugal reúne informação sobre os créditos associados a cada consumidor, incluindo créditos pessoais, crédito habitação, cartões de crédito, descobertos bancários e montantes ainda em dívida.
Além dos valores em curso, o mapa também indica se existem prestações em atraso, renegociações ou situações de incumprimento. Na prática, esta ferramenta permite aos bancos perceberem qual é o nível real de endividamento de cada cliente antes de aprovarem um novo empréstimo.
Mesmo que peça o segundo crédito noutra instituição, todos os encargos financeiros atuais serão analisados. Por isso, não deve omitir financiamentos existentes, porque essa informação já consta na base de dados consultada pelos bancos. Um histórico de pagamentos estável e sem incumprimentos tende a aumentar a confiança da instituição financeira, enquanto atrasos ou dificuldades recorrentes podem reduzir as hipóteses de aprovação.
Antes de pedir outro crédito, faça estas contas
Antes de avançar para um segundo financiamento, é essencial perceber qual será o impacto real da nova prestação no orçamento mensal. Não basta confirmar se consegue pagar a mensalidade hoje.
Deve avaliar se continuará a ter margem financeira para suportar despesas fixas, aumentos de custos inesperados ou uma eventual quebra de rendimento. Nas contas, inclua renda ou prestação da casa, seguros, alimentação, transportes, despesas familiares e uma reserva para imprevistos.
Quando um novo crédito é usado para pagar outros empréstimos, o risco de sobreendividamento aumenta significativamente. Embora a solução possa aliviar a pressão financeira no curto prazo, também pode agravar o problema se não existir capacidade para equilibrar o orçamento.
Antes de assumir mais um compromisso, vale a pena analisar se o crédito é realmente necessário ou se existem alternativas mais sustentáveis para reorganizar as finanças pessoais.
Há alternativas aos novos créditos pessoais?
Quando já existem vários encargos mensais, a consolidação de créditos pode ser uma alternativa a contratar um novo empréstimo. Esta solução permite juntar diferentes financiamentos, como créditos pessoais, cartões de crédito ou crédito automóvel, numa única prestação.
Em muitos casos, o valor mensal baixa porque o prazo de pagamento é alargado e porque a taxa de juro aplicada pode ser menor do que a de outros créditos contratados. Desta forma, pode ajudar a aliviar a pressão sobre o orçamento e reduzir a taxa de esforço.
Outra possibilidade passa pela renegociação das condições do crédito atual. Se já sente dificuldade em acompanhar as prestações, o mais prudente é contactar o banco antes de entrar em incumprimento. Dependendo da situação financeira, pode ser possível rever o prazo do contrato, ajustar a prestação mensal ou encontrar outras soluções que reduzam o peso dos encargos. Agir cedo tende a aumentar as hipóteses de conseguir condições mais favoráveis e evitar um agravamento das dificuldades financeiras.
Que documentos podem ser pedidos?
Num segundo crédito pessoal, é comum serem pedidos documentos de identificação, comprovativo de morada, IBAN, recibos de vencimento, declaração de IRS e mapa de responsabilidades de crédito.
Se o pedido for feito no mesmo banco, parte da informação pode já estar disponível. Ainda assim, a instituição terá de confirmar se o cliente continua a ter capacidade financeira.
Compensa ter dois créditos pessoais?
Depende do motivo, da estabilidade dos rendimentos e do peso das prestações. Um segundo crédito pode fazer sentido numa despesa necessária e planeada. Mas deve ser evitado quando serve para tapar dificuldades recorrentes.
A pergunta principal não deve ser apenas se é possível ter dois créditos pessoais. Deve ser se o orçamento suporta esse compromisso sem pôr em causa despesas essenciais, poupança e segurança financeira.
Leia ainda: Como pedir crédito de forma responsável: Guia completo
Perguntas frequentes
Não existe um limite legal para o número de créditos pessoais que uma pessoa pode ter em simultâneo. Contudo, cada novo pedido é analisado pelo banco com base na capacidade financeira do cliente. Quanto mais encargos tiver, maior será a taxa de esforço e menor tende a ser a probabilidade de aprovação. Além disso, as instituições financeiras analisam rendimentos, estabilidade profissional e histórico de pagamentos antes de concederem um novo financiamento.
Sim. Todos os créditos em curso têm impacto na taxa de esforço e podem reduzir a capacidade para obter um crédito habitação no futuro. Mesmo que as prestações sejam pagas sem atrasos, os bancos avaliam o peso total dos encargos mensais no orçamento familiar. Quanto maior for o valor comprometido com créditos pessoais, menor pode ser o montante aprovado para comprar casa. Em alguns casos, o pedido pode até ser recusado.
Sim. Em Portugal, os consumidores podem amortizar total ou parcialmente um crédito pessoal antes do fim do contrato. Contudo, o banco pode cobrar uma comissão de reembolso antecipado, dentro dos limites definidos por lei. Antes de avançar, vale a pena confirmar se a redução de juros compensa esse custo. Amortizar antecipadamente pode ajudar a reduzir os encargos mensais e melhorar a taxa de esforço para futuros financiamentos.
Quando existe atraso no pagamento de uma prestação, o banco pode cobrar juros de mora e outras comissões associadas ao incumprimento. Além disso, a situação fica registada no mapa de responsabilidades de crédito do Banco de Portugal, o que pode dificultar futuros pedidos de financiamento. Se antecipa dificuldades em pagar, o mais prudente é contactar rapidamente a instituição financeira. Em muitos casos, é possível encontrar soluções antes de a situação se agravar.
Depende da situação financeira e dos encargos existentes. A consolidação de créditos pode reduzir a prestação mensal ao juntar vários financiamentos num único contrato. Isto inclui, muitas vezes, cartões de crédito, que tendem a ter taxas de juro mais elevadas. Contudo, apesar de a prestação poder baixar, o prazo do financiamento costuma aumentar. Antes de avançar, é importante analisar o custo total do crédito e perceber se a solução traz uma poupança real.
