Casal de reformados a analisar finanças

A entrada na reforma traz mudanças importantes ao orçamento familiar. Em muitos casos, os rendimentos diminuem, enquanto algumas despesas – sobretudo relacionadas com a saúde – tendem a aumentar. Se está a ponderar pedir um empréstimo, é importante avaliar cuidadosamente o impacto dessa decisão nas suas finanças.

Além da prestação mensal, há outros custos que não devem ser ignorados, como os seguros associados. Por outro lado, recorrer ao crédito para pagar despesas correntes ou bens essenciais deve ser encarado como um sinal de alerta, já que pode indicar que o orçamento deixou de ser suficiente para fazer face às necessidades do dia a dia.

Seja para fazer obras em casa, suportar despesas de saúde ou, até, comprar casa, antes de assumir um novo compromisso financeiro, compare propostas, confirme se a prestação é compatível com a sua pensão e pondere se o crédito é realmente a solução mais adequada. Neste artigo explicamos os principais cuidados a ter com o crédito durante a reforma.

Primeiro passo: Precisa mesmo do crédito?

Durante a vida ativa, uma quebra temporária de rendimentos pode, por vezes, ser compensada com horas extraordinárias ou um segundo emprego, por exemplo. Na reforma, essa margem de manobra é, regra geral, mais reduzida. Por isso, antes de assumir um novo compromisso financeiro, vale a pena parar e refletir sobre a necessidade de contratar esse crédito. Um empréstimo pode ser a solução adequada para responder a uma despesa importante, mas também pode limitar o seu orçamento durante vários anos.

Antes de avançar, pergunte-se:

  • Esta despesa é realmente indispensável ou pode ser adiada?
  • Tenho poupanças que possa utilizar em vez do crédito, sem comprometer a minha segurança financeira?
  • Existe outra forma de financiar esta despesa?
  • A prestação continuará a ser comportável se surgirem despesas inesperadas, por exemplo, com a saúde?
  • Conseguirei conciliar o pagamento da prestação com as despesas do dia a dia?

Se concluir que recorrer ao crédito é inevitável, avance de modo informado e escolha uma solução compatível com os seus rendimentos e a sua situação financeira.

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Existe uma idade máxima para pedir crédito?

A legislação portuguesa não estabelece uma idade máxima para contratar um crédito. Isso significa que uma pessoa reformada pode pedir um empréstimo, desde que reúna as condições exigidas. Estas podem variar de banco para banco e assentam em critérios como:

  • A idade do cliente;
  • Os rendimentos;
  • A taxa de esforço;
  • O histórico de crédito;
  • A estabilidade financeira.

Na maioria dos casos, o limite não diz respeito à idade no momento da contratação do crédito, mas sim aos anos que o cliente terá no final do contrato.

Como a idade influencia o prazo do empréstimo

Os limites de idade não são iguais em todas as instituições: enquanto alguns bancos admitem contratos até aos 70 ou 75 anos, outros vão até aos 80 anos.

Esta diferença pode ter um impacto significativo nas condições do financiamento. Imagine que um banco estabelece os 70 anos como idade máxima no final do contrato. Nesse caso, um cliente de 68 anos apenas poderá obter um empréstimo com um prazo máximo de dois anos, enquanto outro cliente de 55 anos poderá beneficiar de um prazo bastante mais alargado.

A limitação do prazo de financiamento em função da idade tem duas consequências principais:

  • Prazos mais curtos tendem a traduzir-se em prestações mensais mais elevadas;
  • Prazos mais longos reduzem a prestação mensal, mas aumentam o custo total do crédito, pois pagam-se juros durante mais tempo.

Ou seja, o prazo influenciará não só o valor da prestação como o custo total do empréstimo, pelo que é um fator importante a ter em conta no momento de fazer um crédito.

Crédito pessoal: Como funciona depois da reforma?

Na prática, o processo de pedir um crédito pessoal depois da reforma é muito semelhante ao de qualquer outro cliente. O banco analisa o pedido, verifica a capacidade de pagamento e avalia o risco antes de decidir se aprova ou não o financiamento.

Há, no entanto, algumas especificidades do pensionista – como a idade, o valor da pensão ou o prazo disponível para reembolsar o empréstimo – que podem influenciar a decisão da instituição financeira.

O que o banco avalia antes de aprovar o crédito

Tal como acontece em qualquer processo de concessão de crédito, o banco terá de analisar se o empréstimo é compatível com a sua situação financeira. Para isso, terá em conta fatores como:

  • O valor da pensão ou de outros rendimentos;
  • A taxa de esforço, ou seja, a percentagem do rendimento mensal destinada ao pagamento de outros créditos;
  • Os empréstimos que já tem em curso;
  • O histórico de crédito;
  • A idade e o prazo pretendido para o financiamento.

Para isso, terá de apresentar a documentação necessária para a análise do pedido de crédito, como documentos de identificação, comprovativo de reforma, declaração de IRS, extratos bancários, etc.

Em que situações faz sentido pedir um crédito na reforma? Três exemplos comuns

Durante a reforma, algumas despesas tornam-se mais frequentes, mas nem todas justificam assumir um novo compromisso financeiro durante vários anos. Antes de avançar, pergunte-se se o empréstimo vai contribuir para melhorar a sua qualidade de vida ou apenas resolver uma dificuldade temporária.

Obras em casa

Com o avançar da idade, é comum surgirem necessidades de adaptação da habitação. Substituir uma banheira por uma base de duche, instalar corrimãos, eliminar barreiras arquitetónicas ou melhorar o conforto térmico da casa são intervenções que melhoram a segurança e a autonomia em casa.

Nestes casos, recorrer a um crédito pessoal pode fazer sentido, sobretudo quando não existem poupanças suficientes para suportar o investimento. Ainda assim, antes de contratar um empréstimo, avalie se o valor das obras justifica o financiamento e se conseguirá suportar a prestação sem comprometer outras despesas essenciais.

Despesas de saúde

Para muitas pessoas, despesas com cirurgias, próteses, implantes dentários ou equipamentos de apoio podem ser difíceis de comportar. Se o plafond do seguro de saúde não é suficiente ou não é possível recorrer a poupanças, um crédito pessoal para despesas de saúde pode ajudar a distribuir este custo ao longo do tempo.

No entanto, embora este tipo de financiamento tenha, em regra, prazos máximos entre 8 e 10 anos, sempre que possível, evite prazos demasiado longos. Procure um prazo compatível com o seu orçamento, mas que permita liquidar o crédito rapidamente, reduzindo o montante em juros.

Crédito para apoiar filhos ou netos

Alguns reformados recorrem ao crédito para ajudar familiares a comprar casa, financiar estudos ou ultrapassar dificuldades financeiras. Apesar de ser um gesto compreensível, este é talvez o tipo de crédito que exige maior reflexão.

Ao contrário de um empréstimo destinado a melhorar a própria habitação ou a responder a uma necessidade de saúde, neste caso quem assume a dívida é o reformado, mas quem beneficia diretamente do dinheiro é outra pessoa. Por isso, antes de avançar, deve garantir que a nova prestação não compromete o seu orçamento, deixando-o, eventualmente, dependente de ajuda financeira de terceiros para cumprir o contrato.

Em caso de dúvida, poderá ser preferível apoiar os familiares de outra forma, sem pôr em risco a sua estabilidade financeira.

Crédito habitação para reformados: O que muda?

Contratar um crédito habitação nesta fase da vida será, em princípio, mais difícil do que conseguir um empréstimo com prazos e montantes inferiores. Embora continue a ser possível obter financiamento, a idade do mutuário tem um grande peso em aspetos como a definição do prazo do contrato – que influencia o valor da prestação – e o seguro de vida, o que, em última análise, pode mesmo inviabilizar o crédito.

Prazo curto, prestações mais elevadas

Embora os mutuários com mais de 35 anos possam aceder a empréstimos com prazo máximo de 35 anos, quem compra casa após a reforma não conseguirá beneficiar desse limite. A maioria dos bancos exige, normalmente, que o crédito esteja liquidado até aos 70 ou 75 anos. Ou seja, pedir um crédito habitação na reforma significa ter um prazo de reembolso muito curto, o que vai traduzir-se em:

  • Prestações mensais mais elevadas – ainda que dependam sempre do valor do financiamento;
  • Taxa de esforço também mais elevada, o que pode reduzir o montante que o banco está disposto a financiar.

Imaginemos o exemplo de dois titulares reformados com um rendimento mensal total de 2.000 euros e sem outros créditos.

Financiamento de 150.000 euros, com uma TAN de 2%

Prazo do crédito

Prestação mensal

Taxa de esforço

8 anos

1.692,13€

85%

30 anos

554,43€

28%

Financiamento de 50.000 euros, com uma TAN de 2%

Prazo do crédito

Prestação mensal

Taxa de esforço

8 anos

564,04€

28%

30 anos

184,81€

9%

Estes exemplos mostram que a principal condicionante não é a idade em si, mas o facto de esta limitar o prazo de reembolso. Para uma pessoa com a idade legal da reforma – ou seja 66 anos e 9 meses, em 2026 – o prazo máximo de um crédito habitação não deverá ultrapassar os oito ou nove anos. Estes prazos mais curtos irão traduzir-se em taxas de esforço mais elevadas, pelo que os bancos tenderão a apertar os critérios de concessão do crédito e a reduzir os montantes financiados.

Seguro de vida: Custo aumenta e as coberturas podem ser mais limitadas

Além do crédito propriamente dito, o banco exigirá a contratação de um seguro de vida, que garanta o pagamento do empréstimo em caso de morte ou invalidez. À medida que a idade avança, o prémio deste seguro tende a aumentar, pelo que comprar casa após a reforma implica, normalmente, pagar mais em comparação com um mutuário mais jovem.

Além disso, há que ter também em conta as condições de adesão e as idades-limite previstas nos contratos. Por exemplo, há companhias que só permitem contratar o seguro de vida até aos 64 anos. Noutras, a cobertura de invalidez cessa aos 67 anos. Estas limitações podem reduzir as opções de seguro disponíveis para titulares reformados e, consequentemente, dificultar a contratação do crédito habitação.

Leia ainda: Comprar casa depois dos 50 anos: O que saber antes de avançar

Compare propostas e não olhe apenas para a prestação

Independentemente da maior ou menor dificuldade em obter financiamento, sempre que tencione contratar um crédito há cuidados que não deve descurar. Ainda que uma das primeiras preocupações de quem pede um empréstimo seja saber quanto terá de pagar todos os meses, quando pedir simulações a diferentes bancos, não opte por uma determinada proposta apenas com base na prestação mensal ou na taxa de juro. Um crédito aparentemente mais barato pode acabar por ter um custo total superior devido aos juros, comissões ou outros encargos.

Antes de tomar uma decisão, avalie e compare os seguintes indicadores – sendo que é a Taxa Anual de Encargos Efetiva Global (TAEG) e o Montante Total Imputado ao Consumidor (MTIC) que permitem aferir o custo efetivo do crédito:

O que deve comparar

O significa

Porque é importante

TAEG

Reflete o custo global do crédito, incluindo juros, comissões, impostos e outros encargos obrigatórios.

É o principal indicador para comparar propostas de diferentes bancos.

MTIC

Corresponde ao montante total que pagará até ao fim do contrato.

Permite perceber quanto custará realmente o empréstimo.

Prestação mensal

Valor que pagará todos os meses.

Deve ser compatível com o seu orçamento, mas não deve ser o único critério de escolha.

Prazo

Número de meses ou anos para reembolsar o crédito.

Um prazo mais longo reduz a prestação, mas aumenta o custo total do financiamento.

Seguros e comissões

Encargos associados ao contrato.

Podem aumentar significativamente o custo do crédito e nem sempre têm o mesmo preço entre instituições.

Para facilitar a comparação entre propostas, recorra à Ficha de Informação Normalizada Europeia (FINE). Este documento, que os bancos são obrigados a disponibilizar antes da contratação, apresenta de forma padronizada as principais características do crédito, incluindo a TAEG, o MTIC, a prestação mensal, os encargos e as condições do contrato. Como todas as instituições utilizam o mesmo modelo, torna-se mais fácil identificar a proposta mais vantajosa.

Atenção ao crédito fácil e aos cartões de crédito

Na reforma, é comum haver menos margem para acomodar despesas inesperadas. Perante um imprevisto ou um desequilíbrio no orçamento, recorrer a um crédito de aprovação rápida ou utilizar o cartão de crédito pode parecer a forma mais fácil de resolver o problema. No entanto, estas soluções podem agravar a sua situação financeira se não forem utilizadas com prudência.

Crédito fácil tem custos elevados

O crédito fácil promete respostas rápidas, poucos requisitos para a concessão do financiamento e um processo de contratação simplificado, muitas vezes, totalmente online. Mas a rapidez de aprovação não significa, necessariamente, que sejam a opção mais vantajosa. Em muitos casos, estes créditos apresentam taxas de juro mais elevadas, comissões ou outros encargos que aumentam, e muito, o custo total do financiamento.

Antes de aceitar qualquer proposta, analise cuidadosamente as condições do contrato, incluindo a TAEG, o MTIC, as comissões e os restantes encargos. Lembre-se de uma decisão tomada por impulso pode resultar em encargos significativamente mais elevados.

Cartão de crédito: Evite financiar despesas do dia a dia

Também o cartão de crédito merece especial atenção. Utilizá-lo para pagar despesas correntes – como alimentação, medicamentos, combustível ou contas da casa – pode ser um sinal de que a pensão não é suficiente para suportar as despesas do dia a dia. Nestas situações, a solução pode não estar no crédito, mas na reorganização do orçamento ou na procura de outras formas de apoio.

Identifique os gastos que mais pesam nas contas, procure reduzir despesas que possam ser adiadas e avalie se faz sentido renegociar ou consolidar créditos existentes para baixar a prestação mensal. Se, mesmo assim, continuar a ter dificuldades em cumprir os seus compromissos financeiros, exponha a situação junto da instituição bancária antes de entrar em incumprimento.

Por fim, pode ainda verificar se reúne condições para beneficiar de apoios sociais ou de prestações a que ainda não tenha recorrido.

Leia também: Como pedir crédito de forma responsável

Perguntas frequentes

Sim. A reforma não impede a contratação de um crédito. No entanto, o banco irá avaliar fatores como os seus rendimentos, a taxa de esforço, o histórico de crédito, a idade e o prazo pretendido para decidir se aprova o financiamento.

Não existe uma idade máxima definida por lei. Cada instituição financeira estabelece os seus próprios limites, sendo habitual que a idade seja considerada no final do contrato e não no momento da contratação.

Sim, desde que reúna as condições exigidas pelo banco. Contudo, como o prazo do empréstimo tende a ser mais reduzido, a prestação mensal poderá ser mais elevada e o montante financiado poderá ser inferior ao de um mutuário mais jovem.

A idade, por si só, não impede a concessão de crédito. No entanto, pode influenciar o prazo máximo do empréstimo, o custo do seguro de vida e a avaliação do risco feita pelo banco, fatores que podem levar à recusa do pedido.

Se começar a sentir dificuldades em cumprir as prestações, contacte o banco o mais cedo possível. Dependendo da situação, poderá ser possível renegociar as condições do crédito, consolidar empréstimos ou encontrar outras soluções antes de entrar em incumprimento.

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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