Usar a borracha dez vezes a desenhar um mesmo boneco; dizer que já não apetece jogar mais a meio de um jogo que se está a perder; não ter capacidade de tomar decisões tão simples como se quer a camisola vermelha ou a azul; ficar extremamente triste com um 18 porque podia ser 20…. Existem vários fatores que podem contribuir para o elevado medo de errar, tantas vezes acompanhado de baixa tolerância à frustração.

Valorização da avaliação em detrimento do esforço

Os rankings das escolas passam nas notícias. Qual o melhor colégio? Qual a nota de exame mais elevada? A verdade é que estas mensagens passam para os mais novos e podem, de forma bastante subtil, contribuir para uma pressão académica (e não só) aumentada. Há muitas reações da nossa parte que também podem exacerbar respostas de ansiedade ao erro: quando nos zangamos imediatamente com uma nota mais baixa sem perceber que estudo foi feito ou o que se estava a passar com a criança para ter determinada nota; quando escolhe determinada opção e reviramos os olhos se não concordamos sem compreender os motivos de tal escolha… estes comportamentos podem inibir os mais novos de fazer escolhas, manter desempenhos escolares baixos e não contribuir para uma autoestima fortalecida. Um bom truque é manter a curiosidade e questionar os jovens sobre o que acharam sobre a sua prestação e oferecer ajuda se fizer sentido.

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A força da comparação

Atualmente, estamos muito mais expostos à comparação via redes sociais. E recorrentemente isso chega também às crianças. A verdade é que ver a pessoa do lado com a vida que supostamente queremos pode ser complicado. Nos mais novos isso não é diferente. Principalmente a partir da adolescência, o valor que se dá aos pares aumenta substancialmente. As crianças e adolescentes comparam-se aos colegas, aos irmãos… e, na verdade, isso vem também de cima. Quando o professor demonstra preferência por determinados alunos (o que pode ser muito difícil de inibir); quando os pais dizem tantas vezes que o irmão se porta melhor; quando a vizinha é constantemente elogiada por ser tão “certinha” … Este tipo de comportamento e comentários, se recorrentes, pode sem querer ensinar que o amor é condicional e está dependente de bom desempenho e escolhas “certas”. Até vou mais longe: muitas vezes a comparação por parte dos adultos nem é necessária, os mais novos já a fazem sozinhos. É fulcral ensinar que a comparação, até certo ponto, pode ser benéfica. Ajuda-nos a perceber para onde queremos ir e que caminhos podemos traçar para lá chegar através da observação de outros que admiramos. Deixa de ser útil quando serve para nos denegrirmos a nós mesmos e quando “colamos” o nosso valor à nossa capacidade de alcançar o mesmo que os outros (que estão com certeza, em situações muito diferentes!).

Elogios excessivos

Elogiar é uma das grandes estratégias importantes a ter no nosso repertório de competências parentais – funciona como reforço positivo de modo a aumentar comportamentos desejados e muito mais importante que isso: fomenta uma autoestima saudável. O que por vezes acontece é exagerar nos nossos elogios: se por cada coisa “certa” que faz receber um elogio, se só damos valor ao que alcança e não ao caminho traçado, o jovem pode associar o seu valor ao seu desempenho. Não tenhamos medo de elogiar, mas tenhamos também consciência de que não é preciso que seja uma constante em tudo o que uma criança faz, sob pena de perder valor e se tornar superficial.

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Roubar a oportunidade de tentar e falhar

Naturalmente, cometer erros e fazer escolhas que se revelam infrutíferas, traz consigo muita frustração. Se assim o é para os adultos, para os mais novos é, por vezes, ainda mais complexo. Aquilo de que por vezes nós, adultos, nos esquecemos, é que no erro estão oportunidades imensas de aprendizagem das mais diversas competências: tolerância à frustração, resolução de problemas, regulação emocional, resiliência, flexibilidade cognitiva, tomada de decisão… as vantagens de errar são inúmeras! Quantos de nós, quando vemos que uma criança vai fazer uma “asneira”, nos oferecemos imediatamente para fazer por ela? Quantos de nós nos zangamos de forma desproporcional por um erro ou escolha que tinha mesmo de acontecer para abrir novas oportunidades a um desenvolvimento saudável? Treinemos a nossa própria capacidade de regulação emocional: observar, esperar e deixar que o jovem faça. Oferecer ajuda, apenas quando é solicitada (e mesmo assim, ponderar, porque por vezes uma motivação extra faz milagres) e quando mesmo necessária.

O medo de falhar nem sempre é óbvio. Nem sempre aparece em forma de jovens muito certinhos que não partem um prato. É mais profundo que isso e pode surgir como uma procrastinação crónica, como um evitamento de situações que antecipamos ser difíceis, com a necessidade constante de assegurar as nossas decisões junto dos outros, com a busca de confirmação constante, com uma desistência rápida perante adversidades. Assim sendo, é importante estarmos atentos a esta temática nas suas mais diversas formas.

Mostrar que errar e tomar decisões erradas faz parte da vida é uma fatia central de uma educação rica em competências socioemocionais. É importante que não tenhamos medo de mostrar às crianças que os adultos também erram, também se frustram e só assim temos, todos, oportunidade de crescer. A confiança em nós mesmos também parte daqui: de ter a possibilidade de errar, reparar e refazer. Deixemos os mais novos fazer aquilo que tantas vezes também nos devíamos permitir a nós, adultos: simplesmente tentar.

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