No TEDx Porto, uma das reflexões mais estratégicas foi a mensagem que foi transmitida por Bruno Giussani, escritor, jornalista e podcaster.

Não falou de ferramentas, nem de inovação, falou de poder e de uma realidade que poucos querem enfrentar: não controlamos verdadeiramente o mundo digital onde vivemos.

Durante anos, acreditámos que a tecnologia era algo que comprávamos. Hoje, já percebemos que é algo com que habitamos todos os dias, a toda a hora.

Plataformas, cloud e algoritmos

São infraestruturas invisíveis que definem:
– o que vemos 
– o que sabemos 
– e até como decidimos 

O mais relevante e preocupante: não são nossas e não temos poder (embora muitas vezes tenhamos a ilusão de pertença).

Vivemos numa economia onde o acesso substituiu a propriedade, com cada vez menos hardware, menos software e cada vez mais subscrições.

Não temos dados. Temos permissões para chegar a dados, e é por isso que quem controla a infraestrutura, controla o jogo.

A grande questão levantada pelo Bruno Giussani foi a da dependência da Europa a este nível (entre dois terços e três quartos das tecnologias que usamos vêm dos Estados Unidos). Isto não é apenas uma questão tecnológica, é uma questão estratégica e claramente de soberania de poder sobre a informação. Sim, de soberania. Porque se, um dia, esse acesso for condicionado, por razões políticas, económicas ou tecnológicas, o impacto é preocupante e imediato:

– empresas paradas;
– sistemas públicos bloqueados; 
– decisões suspensas.

Não é um cenário distante, é uma possibilidade real. Mas há um segundo nível ainda mais profundo, e ainda mais preocupante: a dependência não é apenas estrutural, é também cognitiva.

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Comodidade em troca de controlo

A inteligência artificial generativa trouxe-nos eficiência, mas também trouxe algo mais subtil que muitos não querem ver ou já não veem: trata-se da delegação de pensamento.

Escrevemos menos, pensamos menos e decidimos menos porque a máquina responde, e em grande parte das vezes, responde bem.

Mas cada resposta que aceitamos sem questionar, é um pequeno pedaço de autonomia que entregamos, autonomia essa que não tem preço.

A metáfora apresentada foi forte: “biberões cognitivos”. Milhões de pessoas todos os dias a consumir pensamento já processado por ser confortável e rápido. Esquecemo-nos que é também perigoso, porque quanto mais delegamos, menos conseguimos funcionar sem isso.

E é aqui que tudo se liga, o controlo como referi atrás, deixou de estar no hardware, passou para uma arquitetura invisível, a saber: algoritmos que filtram informação, sistemas que definem relevância e plataformas que moldam comportamento. Estão em todo o lado, e não estão em lado nenhum, e tudo isto sustentado por um modelo simples: comodidade em troca de controlo.

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Agora, a pergunta que interessa: O que fazemos com isto?

A resposta não é radical, não passa por isolamento, nem por rejeição total da tecnologia. Passa por consciência e por escolha. O conceito apresentado foi o da soberania digital, não como independência total, que hoje é irrealista, mas como capacidade de escolher, adaptar e não depender totalmente.

Isso implica:

– investir em soluções europeias;
– valorizar tecnologia aberta e interoperável;
– desenvolver capacidade interna;
– e, acima de tudo, liderar tecnologia com competência.

Mas há um ponto ainda mais importante, e não é só sobre países, é sobre pessoas.

Todos os dias entregamos dados, delegamos decisões, aceitamos sugestões, sem perceber o impacto acumulado. E é justamente aqui que começa a mudança, pequena, mas consciente.

Torna-se urgente saber trabalhar com quem questiona mais, escolher melhor e não aceitar o caminho mais fácil automaticamente, porque a verdadeira perda não é tecnológica, é mental.

Não, o futuro não vai ser decidido por quem usa mais tecnologia, vai ser decidido por quem mantém controlo sobre ela.

E num mundo cada vez mais automatizado, a maior vantagem pode ser algo inesperado: continuar a pensar por conta própria.

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