Convenção Doutor Finanças

“Nós não gostamos de empresas grandes. E não podemos criar riqueza se só quisermos pequenas empresas.” A “provocação” partiu de Adolfo Mesquita Nunes, advogado e ex-deputado, em resposta à questão que deu o mote à mesa-redonda “Construir riqueza em Portugal. É possível?”. A sessão decorreu no dia 25 de junho, durante a 2.ª Convenção do Doutor Finanças, que teve lugar no espaço do Rock in Rio, em Lisboa.

Ao longo da conversa, os oradores refletiram sobre os principais obstáculos e oportunidades para aumentar a riqueza das famílias e das empresas portuguesas. Leonor Freitas, CEO da Casa Ermelinda Freitas, Luís Pereira Coutinho, administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD), e Mafalda Rebordão, responsável pela área de transformação digital e inteligência artificial (IA) da Microsoft, partilharam também as suas perspetivas sobre temas como o crescimento empresarial, o papel do Estado, a literacia financeira e o impacto da IA na forma como empresas e cidadãos tomam decisões.

Crescimento depende de “políticas públicas pensadas para criar riqueza”

Porque continua, afinal, a ser tão difícil criar riqueza em Portugal? Para Adolfo Mesquita Nunes, uma parte da resposta está na forma como o país olha para o sucesso empresarial. “Ficamos sempre muito chocados com os lucros das grandes empresas”, mas, segundo o antigo deputado, são elas que “pagam melhores salários, têm maior diversidade e são mais capazes de responder a desafios”.

Mas esse crescimento depende também de “políticas públicas pensadas para criar riqueza”. E “há muito espaço à esquerda e à direita para boas políticas públicas”, assumiu.

Do lado empresarial, Leonor Freitas trouxe a perspetiva de quem lidera uma empresa familiar que cresceu ao longo de várias décadas. A CEO da Casa Ermelinda Freitas recordou a transformação de uma pequena adega familiar numa empresa com 600 hectares de vinha e 108 colaboradores. Esse crescimento, explicou, passou por investir quando fazia sentido, sem nunca perder de vista a confiança do consumidor: “O que é preciso é sermos honestos com o cliente”, afirmou.

Foi essa estratégia que permitiu à empresa crescer de forma sustentada, investindo simultaneamente na marca, na modernização e em medidas de sustentabilidade, que, hoje, representam também poupanças para o negócio.

Construir riqueza começa nas decisões do dia a dia

Mas a criação de riqueza não se limita às empresas. Também depende das escolhas financeiras das famílias. Foi essa a mensagem deixada por Luís Pereira Coutinho, administrador da CGD, que destacou o papel da literacia financeira e do crédito habitação na construção de património. “Construir riqueza não depende só do rendimento. Acreditamos que com boas decisões financeiras, nomeadamente na compra de habitação, é possível criar riqueza”, afirmou.

Na sua opinião, comprar casa continua a ser uma das decisões financeiras mais importantes para muitas famílias, não apenas porque permite acumular património, mas também porque cria hábitos de poupança ao longo da vida. Mas essa decisão só faz sentido quando é tomada de forma sustentável e informada. Num contexto internacional cada vez mais imprevisível, Luís Pereira Coutinho defendeu que é essencial trabalhar com instituições financeiras sólidas e procurar aconselhamento antes de assumir compromissos de longo prazo.

Inteligência artificial e literacia financeira: Educação é o cerne da questão

A IA acabou por dominar uma parte significativa da conversa. Admitindo que esta tecnologia “pode ser um motor espetacular” para as empresas, Adolfo Mesquita Nunes alertou também para os seus riscos: “pode destruir valor”. Segundo explicou, muitas empresas estão a delegar decisões em sistemas cujo funcionamento desconhecem. Reforçou, por isso, a necessidade de estas não perderem o controlo: “A IA não é para estar no departamento de IT, mas na comissão executiva.”

Ainda no âmbito do papel da IA no processo de tomada de decisão, Mafalda Rebordão reconheceu que os jovens portugueses estão hoje mais interessados em literacia financeira e procuram mais informação do que as gerações anteriores, mas lamentou que essa procura se faça, cada vez mais, através das redes sociais e de chatbots. Exemplificando com o caso do crédito habitação, alertou para os riscos de se tomarem decisões apoiadas nestas ferramentas: “O modelo de IA não tem contexto sobre as nossas poupanças, sobre a nossa situação familiar…”

Para Mafalda Rebordão, ainda há um grande caminho a fazer na literacia financeira, e este está intimamente ligado à educação: “Este é o verdadeiro desafio”, concluiu.

Mais ambição para que cada um tenha direito a “uma fatia do bolo”

Mas construir riqueza passará por mais do que a capacidade de as empresas criarem valor, por políticas públicas que incentivem o investimento e cidadãos mais preparados para gerir o seu dinheiro?

Para Mafalda Rebordão, sim. Depende também de uma mudança cultural sobre a forma como olhamos para a ambição. “Em Portugal há uma cultura de medo”, atitude que contrasta com a que observa nos Estados Unidos, onde reside atualmente, referiu. E, por isso, deixou o repto: “Gostaria que houvesse mais ambição coletiva. Fazer de Portugal um bolo maior, para que cada um possa tirar uma fatia para si.”

A informação que consta no artigo não é vinculativa e não invalida a leitura integral de documentos que suportem a matéria em causa.

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